Eu pensei que estivesse escrito na minha testa ou na testa desta coluna e do meu blog, que sou apaixonada pelo Japão. Quando eu disse, na edição passada (Alternativa Higashi, Edição 07, de 25 de janeiro de 2008), “Tem gente que reclama porque eu só falo bem do Japão. Pois hoje vou falar mal, muito mal!” era brincadeira! Teve gente que levou a sério e me deu bronca por desacatar o Japão (logo eu, fã assumida que sou!). Outros acharam pouco e queriam que eu falasse mal mesmo!
Recebi e-mail de um leitor indignado (o da bronca) e comentários de outros não menos indignados lá no blog. Expliquei para um deles: eu não quero falar mal do Japão. Sei que este país não é perfeito, mas qual país é? As diferenças culturais entre o Brasil e o Japão me encantam e o fato de ter que tirar os sapatos numa festa ou num restaurante não vai me fazer mudar de idéia. Eu sou daquelas que chegou aqui explodindo de alegria e vai sair com o coração partido e os olhos inchados de tanto chorar. Sim, eu a-d-o-r-o o Japão!
Mas deixa esse papo para lá. A coluna continua e o tema de hoje é a vida sem carro em Gunma. Que, por sinal, é muito mais divertida do que os motorizados possam imaginar.
Soube que Gunma é a província com maior número de carros do país. Assim, fica fácil deduzir que o transporte público daqui não se compara ao de Tokyo. Na capital, andar de trem, metrô e ônibus é tão prático que carro chega a ser supérfluo. Foram quase quatro anos lá e nem passou pela minha cabeça comprar um (caso eu tivesse dinheiro, claro). Andei de táxi algumas vezes e outras de carona. Mas, realmente, quem tem carro em Tokyo prefere usá-lo somente nos finais de semana. Afinal, o transporte público não é apenas mais prático. É também mais econômico e mais rápido!
No interior, as coisas mudam. Na minha cidade (Ota), nem trem-bala tem. E aquele cartãozinho com a tabela de horários de partidas e chegadas dos trens é mesmo indispensável. Os desavisados costumam esperar 20, 30 minutos ou até 1 hora na plataforma (especialmente, no caso de quem vai para a vizinha Oizumi). Nesse frio, então, é dureza! Mas como tudo tem um lado positivo, olhem o que eu descobri e adorei: a camaradagem dos maquinistas e funcionários das estações de trem daqui.
“O trem já vai sair!” avisou logo o senhor da Estação Nishi-Koizumi. Eu estava lá tranquila procurando moedas para comprar o meu tíquete, mas depois desse aviso, entrei correndo sem ele mesmo. Detalhe: o aviso foi especialmente para mim! Numa estação grande, como as de Tokyo, eu não poderia fazer isso. Mas aqui não faz mal deixar para pagar depois. Aliás, não tem catraca. Só na saída, lá em Ota (repito, no caso de quem faz o trajeto Oizumi-Ota).
Quem já desembarcou em Ryuumai, da mesma linha Tobu-Isesaki, sabe bem o que é uma estação de trem sem catraca. Dia desses, fiquei quebrando a cabeça para descobrir onde deixar o tíquete até dar de cara com uma espécie de caixa de correio grudada na parede e umas letrinhas, até então, desconhecidas para mim: 集札箱。O lado positivo? Ora, aprendi mais uma palavra em japonês! E mais três ideogramas (kanji)! A leitura é shuusatsubako e significa caixa para colocar o tíquete.
Voltando à camaradagem típica das cidades pequenas, fiquei impressionada quando o maquinista abriu a porta do trem para mim. Sim, ele já estava preparado para sair e ao me ver esbaforida, pôs a cabeça para fora da janelinha e me perguntou: “vai pegar esse?” Foi só eu responder “sim” e o simpático senhor me deixou entrar. Não fosse a gentileza dele, eu ficaria ali 1 hora até passar o seguinte trem. Que alívio!
A gentileza não pára por aí. Na mesma estação, lá estava eu atrasada e esbaforida mais uma vez. Uma das funcionárias me viu correndo em direção à plataforma e foi logo perguntando para onde eu ia. Avisei que pegaria aquele trem pronto para sair e ela deu um grito, lá do pé da escada rolante: “tem mais uma passageira!” O senhor que estava no topo da mesma escada se encarregou de avisar o maquinista. Ufa, de novo! Advinhe o horário do próximo trem? Sim, uma hora depois!
Tem mais! Numa noite super fria, esperando o trem na estação onde se faz baldeação para ir de Ota a Oizumi, fui “vítima” da gentileza do funcionário local mais uma vez. Eu estava esperando ali, perto dele, na entrada e nem percebi o trem chegar. Afinal, faltavam pelo menos 10 minutos para o horário de partida. Pois o senhor foi super camarada comigo. “O trem já chegou, você pode esperar lá dentro. Está muito frio né!”. Agradeci e fui correndo, claro. E ainda dizem que os japoneses não são legais. Sinto muito, mas eu discordo!
(Publicado na Alternativa Higashi, Edição 08, de 21 de fevereiro de 2008)
FOTO: estação onde faço baldeaçao (Higashi-Koizumi). A estação perto da minha casa (Ota) é um pouquinho mais chique. Tem até escada rolante :P