O personagem: Ricardo Yamamoto, 32 anos, fotógrafo, quer se engajar um dia numa atividade que possa causar um impacto no mundo, através é claro da fotografia
Foi ao som de O Calhambeque, de Roberto Carlos, num wine bar e restaurante italiano sofisticado, em plena Omotesando (Tóquio), que tive um papo animadíssimo com Ricardo Yamamoto, um fotógrafo que tem um olhar apurado para registrar as cenas do cotidiano brasileiro no Japão.
A escolha do restaurante foi proposital. Alguns dos trabalhos do jovem estão expostos neste local, frequentado por empresários e gente descolada, que curte arte e boa comida – o Sin é comandado pelos simpáticos italianos Vittorio e Pietro, radicados no Japão há 15 anos.

Legenda: Sem título. Hamamatsu 2002. Crédito: Ricardo Yamamoto
Ricardo está no arquipélago há quase 17 anos. “Isso é mais da metade da minha vida”, calcula. A maior parte do tempo, ele ralou em fábricas e, há pouco mais de um ano trocou Hamamatsu (na província de Shizuoka) pela capital japonesa. Largou as linhas de produção e a aglomeração de brasileiros por um trabalho como produtor numa tevê brasileira. Aliás, foi lá em Hama – como é carinhosamente chamada a cidade pelos brasileiros – que tive o primeiro contato com o trabalho do fotógrafo.
Seu jeito simples e calmo de hoje contrasta com seu passado skatista. “É porque mudei o jeito de me vestir”, brinca Ricardo, que por longos 10 anos investiu boa parte do que ganhava na fábrica no esporte. A fase do skate chegou ao fim e ai ele descobriu os prazeres da fotografia. “Comprei uma Nikkon F60 e queria saber usar os recursos dela. Comecei a estudar e fui aprendendo”, conta.

Ricardo é um auto-didata. Fez apenas um curso básico, teve dicas preciosas de um amigo fotógrafo profissional e não parou nunca de pesquisar e estudar. Apaixonou-se pela foto PB (preto e branca) e tem em Sebastião Salgado uma espécie de espelho. “Foi com ele que aprendi que com uma imagem podemos expressar uma opinião ou idéia”, fala.
Foi daí que surgiu então a idéia do Projeto Partida, no qual o brasileiro registra momentos da vida do dekassegui. “Partida pode significar ‘ir embora’ como ‘começar algo’. E é essa a situação dos brasileiros que vivem no Japão. Estamos sempre partindo”, analisa. Até agora fazem parte do projeto cerca de 40 imagens. Todas, posso dizer, muito cativantes e mostram a relação íntima que ele tem com a comunidade, fruto dos muitos anos de convivío diário com os conterrâneos.
O papo no restaurante italiano durou umas duas horas. Falamos não só da vida dele, como também de projetos e a divertida rotina para quem mora em Tóquio. Encerramos a conversa com um cafezinho básico – eu café com leite e ele um capuccino, na verdade –, e ficamos de marcar um outro encontro. Desta vez, para ele me dar umas dicas de foto.
Ah! E para entrar no clima das fotos do Ricardo, eu postei aqui fotos do “entrevistado” em preto e branco. Espero que gostem. E quem quiser saber mais sobre o trabalho do Ricardo entre aqui neste site: (http://ricardoyamamoto.com).

Legenda: Churrasquinho e karaokê em loja brasileira. Hamamatsu, 2002.
Crédito: Ricardo Yamamoto (http://ricardoyamamoto.com)